Arthur Soffiati
Na Carta do Brasil IBGE em escala 1:50000, encontra-se
uma pequena bacia hídrica cujo rio principal e dois afluentes não foram
nomeados nem sequer pelos moradores locais. Se foram, seus nomes pouco a pouco
caíram no esquecimento. Como ela chega ao mar nas imediações da Praia de
Manguinhos, este nome foi usado para identificá-la. Por informação de alguns
moradores, sabe-se que o pequeno córrego, cuja foz situa-se na extremidade
norte da praia, mantinha comunicação com o mar no período das cheias,
sustentando um manguezal constituído apenas de mangue branco (Laguncularia
racemosa) como espécie exclusiva deste ambiente. Acompanham esta pequena
população exemplares de guaxuma (Talipariti pernambucense) e de inimboi
(Guilandina bonduc). O contexto primitivo geral é o de um pequeno vale embutido
no tabuleiro cortando, no passado, floresta estacional.
A enseada de Manguinhos está a merecer um estudo pelo
papel que desempenhou na economia escravista regional no século XIX, mormente
após a promulgação da Lei Eusébio de Queiroz, de 1850, proibindo o tráfico
atlântico de escravos. Maximiliano de Wied-Neuwied pernoitou na fazenda de
Manguinhos em 1815, chamando-a de Mandinga. Ali aguardou retardatários de sua
expedição, que ficaram retidos num estreito canal, provavelmente uma referência
ao Rio Guaxindiba, pouco mais ao sul. Ele notou, ao caminhar pela praia, pedras
perfuradas, até hoje encontradas naquelas paragens pela sua formação geológica:
ali termina efetivamente a segunda restinga da região e o tabuleiro alcança a
costa. Saint-Hilaire pousou na mesma fazenda, segundo ele, constituída de
pequenas casas cobertas de capim e construídas à beira-mar. Tudo lhe pareceu
abandonado, mas, afastando-se um pouco para o interior para colher plantas para
a sua coleção, viu plantações de bananeiras, mamoeiros e vastos mandiocais. A
mata virgem que ele atravessaria em seguida rumo à fazenda Muribeca, às margens
do Rio Itabapoana, já não era mais tão virgem assim.
O estresse crônico do manguezal de Manguinhos, pouco
acima de suas condições mínimas de existência, podem ser reunidos, atualmente,
em dois grupos. O primeiro deles é a supressão de toda a vegetação nativa
terrestre ao longo dos pequenos rios formadores da bacia, com seus resultados
clássicos, sobretudo erosão e assoreamento. O segundo é constituído por
barramentos dos leitos do rio principal e de seus afluentes, na segunda metade
do século XX. O Córrego de Manguinhos foi barrado pelo menos por três eventos
estruturais. A rodovia RJ-196, construída nos anos de 1970 e pavimentada em
1999-2001, com mínimo sistema de fluidez para as águas, foi um deles. Outro foi
uma represa em propriedade particular para a formação de um lago. Junto à foz,
a prefeitura construiu uma estreita estrada costeira com apenas um bueiro, que
constituiu mais um barramento. Por seu turno, o único afluente do córrego pela
margem esquerda sofreu também um processo de estreitamento com somente um
bueiro sob a RJ-196 e acabou sendo barrado por uma estrada particular.
O conjunto de tensores afetou a bacia como um todo e o
manguezal em particular. Seus rios formadores tornaram-se embrejados, quer por
assoreamento, quer por eutrofização, quer ainda por mudança de seu regime de
rio para lagoa. A perda d’água e a lentidão de seu deslocamento subtraíram da
bacia sua capacidade de acumular volume hídrico e de romper a barra costeira.
Por outro lado, a pequena estrada passou a impedir as invasões marinhas que
permitiam a língua salina entrar no sistema. O bueiro sob ele estava vedado e
já foi removido. Mesmo assim, uma ressaca ocorrida em maio de 2001 ultrapassou
a estrada e invadiu o manguezal, além de soterrar completamente o bueiro
existente sob ela.
Quanto ao manguezal, que sempre deve ter apresentado
pequenas dimensões, uma das táticas de sobrevivência dele foi a redução de sua
área às partes mais úmidas. Restaram apenas exemplares de mangue branco como
espécie exclusiva. A acumulação de água doce no sistema pela construção de
barragens favoreceu a invasão de espécies vegetais terrestres tolerantes à água
e a baixos teores de salinidade, como a guaxuma e o rabo de galo (Dalbergia
ecastaphyllum).
Para adaptar-se às condições estressantes, os poucos
exemplares de mangue branco que restaram no manguezal emitiram raízes anômalas
com respiradores aéreos em profusão, como em quase todos os manguezais da
região estudada. Chama a atenção o fato de esta artimanha da planta ser
comumente deflagrada quando a lâmina d’água se estabiliza verticalmente por
força de algum estressor de origem natural ou humana. No caso do manguezal de
Manguinhos, porém, a resposta aparentemente não decorre de excesso d’água, mas
de aridez, visto que, a montante, as várias barragens o privaram de água doce
e, a jusante, a penetração da língua salina no sistema também foi bloqueada por
uma pequena rodovia com o bueiro entupido. Duas hipóteses podem ser levantadas
para explicar o fenômeno: ou ele vem a ser o registro de um outro momento da
história do manguezal, quando, em lugar de aridez, havia uma lâmina d’água
estabilizada pela barragem a jusante dele a afogar as raízes, ou o ressecamento
do solo também provoca a emissão de raízes anômalas, como parecem sugerir
alguns casos de mangue branco no Rio São João. Nesta situação, as raízes
anômalas poderiam surgir para compensar a falta de raízes respiradoras normais,
que não conseguiriam romper o solo endurecido por ressecamento. Nota-se também
que as raízes se apresentam lenhosas, sugerindo terem sido emitidas há certo
tempo.
Outra particularidade do diminuto manguezal de Manguinhos
é o desenvolvimento do mangue branco em forma de touceira, fenômeno já
encontrado no manguezal da Lagoa do Siri, no sul do Espírito Santo. Tanto na
Lagoa do Siri quanto em Manguinhos, ela parece ligada ao ressecamento do solo,
ressalvando-se mais uma vez que tal configuração pode resultar de um momento do
manguezal em que predominava a água.
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Exemplar de mangue branco com raízes anômalas e
desenvolvimento em touceira. Manguezal de Manguinhos. Foto do autor (agosto de
1999).
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Nesse ambiente ressecado por ação humana, até alguns
exemplares de guaxuma foram obrigados, por força das circunstâncias, a emitir
raízes anômalas como tática de sobrevivência num ambiente que se tornou quase
que inteiramente cativo do domínio humano.
Sobrevivendo num ambiente ressequido, em que restaram
apenas algumas poças d’água, este ambiente não poderia escapar de um outro
tensor ambiental: o aquecimento da água. Em face do sombreamento das plantas,
seus efeitos não se fazem sentir com a mesma intensidade da registrada na barra
do Ribeirão de Buena. No entanto, exposta ao calor solar, a água empoçada
atinge elevadas temperaturas. Cumpre mais uma vez notar que o sol não é o
estressor, mas sim a redução do volume d’água, que favorece o aumento das
temperaturas sobre a lâmina hídrica.
Finalmente, pode-se identificar ainda uma forma de
estresse neste ambiente. Trata-se do ataque às folhas por insetos, que atinge
principalmente o rabo de galo, uma espécie oportunista e que avança com o
aumento da água doce.
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Guaxuma com raízes anômalas no manguezal de Manguinhos. Foto do autor (agosto de 1999)
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